terça-feira, agosto 23, 2005

Sinais de Depressão

Meus braços são segmentos finos e compridos, cujas extremidades ramificadas e articuladas terminam em pequenas películas grossas e duras denominadas unhas. Antes usávamos como arma de defesa ou ataque. Hoje abrigamos diversos tipos de parasitas que ali se instalam e retiram o que precisam de nosso corpo, deixando a sujeira como seu cartão de visitas que sempre levamos à boca, coçamos a cabeça e os olhos, limpamos pequenas sujeiras de difícil acesso.
Esses longos segmentos se ligam a um centro cilíndrico flácido e frágil onde o coração e outros órgãos pulsam mergulhados num plasma sujo e venenoso. Se misturam com a podridão da alma, envoltos por uma membrana quase permeável onde pêlos curtos e insuficientes surgem na tentativa de aquecer o corpo, acumulando suor neste mesmo meio fétido, que só se mostra protegido por roupas, ternos, metais, e carros.
Uma estrutura esquelética e totalmente articulável montada verticalmente é que dá a forma da carne presa e sustenta o centro de comando de toda essa podridão: a cabeça. Com todos os sensores necessários para detectar movimentos visuais, cor, cheiro, gosto, barulho e um cérebro pra discordar de tudo isso e poder recriar novas. Por todo o corpo correm impulsos nervosos, involuntários em sua maioria. O corpo mal pode escolher como controlar a si mesmo. Escravo de meros impulsos. Perigo ambulante. O homem vírus alastra-se na Terra.
Seus pés não são resistentes o suficiente para percorrer o asfalto sem ajuda de uma sola de couro de algum animal morto. O homem precisa de sapatos para caminhar, os sapatos de asfalto para pisar e o asfalto arvores para se extender. O homem em seu ritual cotidiano e limitado oferece as árvores para o sapato. Não há limites para o os solados de couro morto. E os homens vão se proliferando, se instalando e ficando. Protegido por couro, gravata, ternos e carros o homem vai para a caça.
Na janela o caos parece querer devorar a cidade. Sugando lhe toda sua paz, mastigando o amor com seus dentes afiados. Observo o fétido caos da janela, isenta do ganido desesperado do mundo. Ao longe vejo um anjo decaído vagar. Cansado como a terra cruza ruas sujas e longas avenidas úmidas. Úmidas como os olhos da terra, úmidas como as mãos do anjo. O anjo preto caminha nas ruas mais obscuras, onde a miséria da suas caras, indiferentes, sem fé, surradas. Rostos e roupas surrados, sujos, fascinante. O anjo ri amarelo e olha para cima: as estrelas estão caindo do céu. Aqui no alto da janela, já ouço as estrelas despencarem, sequência interminável de estrondos. Ouço o anjo, o anjo feio, feio...
Desespero-me diante do espelho... Vejo meu rosto, meu rosto feio... Meus olhos tortos que precisam de lentes de vidro para conseguir enxergar o que todo mundo não vê. O que todo cego acha bonito. Meus poros expelem poeira, minhas vísceras estão podres, meu olhar desbotado, meu sorriso amarelo... Quero despejar me nos esgotos da cidade, misturar minha carne pútrida com o tumor do mundo. Quero estilhaçar meu peito e ver minha alma... A minha alma que ninguém vê. A minha alma que ninguém sabe a cor. Minha alma que é estilhaçada. Quero estilhaçar o espelho, o espelho feio...
Relampeja. É o sinal. Num flash de luz vejo a realidade, o que é verdadeiro... em pedaços. Nestas descargas de luz se criam os anjos, os anjos pretos, que descarregam neste mundo frio, fétido, em pedaços, em cacos, cacos de espelho. O caco, meu peito, minha alma... Minha alma estilhaçada. Agarro o caco em minha alma.
Mais uma estrela se joga do céu. Pingo e escorro no ralo da pia...
As estrelas continuam caindo fazendo barulho ensurdecedor. As almas continuam brilhando na noite, aos montes, esperando o destino das almas suicidas. O momento, a hora exata para se jogar do céu... se jogar no chão... para lugar nenhum.

Um comentário:

Anônimo disse...

Beeeem legal.

Ah, eu não estou mais de mal, só tô sem tempo e sem idéias pra fazer muitos comentários, mas sempre passo por aqui. Vc sabe como eu deleto meu 360º???
E pode deixar que logo te passo um novo link, ok!? Beijo!